Morre Silvano Raia, pioneiro dos transplantes de fígado e referência mundial na medicina
Cirurgião foi o primeiro no mundo a realizar transplante hepático com doador vivo e liderava projeto de xenotransplantes com participação do IPT
Primeiro cirurgião brasileiro a realizar um transplante de fígado com doador vivo no mundo, Silvano Raia faleceu nesta segunda-feira, 28 de abril, em São Paulo, aos 95 anos. Referência internacional na área, Raia construiu uma trajetória marcada por inovação, liderança científica e contribuições decisivas para a medicina.
Silvano Mário Attílio Raia nasceu em São Paulo (SP), em 1º de setembro de 1930. Formou-se em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP), em 1956, onde também desenvolveu grande parte de sua carreira acadêmica. Atuou no ensino de diversas disciplinas da área médica, incluindo embriologia, histologia, anatomia, fisiologia, anatomia patológica e clínica cirúrgica, contribuindo para a formação de gerações de profissionais.
Em 1964, movido pelo interesse nas doenças hepáticas — ainda pouco exploradas no Brasil à época —, realizou especialização na Inglaterra. Durante três anos, integrou a Liver Unit do Royal Free Hospital, em Londres, sob a liderança da professora Sheila Sherlock, e posteriormente o grupo do professor Roy Calne, em Cambridge, um dos pioneiros no transplante de órgãos.
Em 1988, Raia realizou o primeiro transplante de fígado com doador vivo (intervivos) descrito na literatura médica mundial. A técnica, publicada na revista The Lancet, inicialmente voltada ao público pediátrico, passou a ser adotada também em adultos, especialmente em países onde restrições culturais ou religiosas limitam o uso de órgãos de doadores falecidos. Segundo dados do Global Observatory on Donation and Transplantation, até 2019 mais de 52 mil pacientes haviam sido submetidos ao procedimento.

Nos últimos anos, Raia esteve à frente do projeto de xenotransplantes, iniciativa inovadora voltada à transferência de células, tecidos e órgãos entre espécies. O projeto reúne instituições como o Instituto do Coração (InCor/HC-FMUSP), o Instituto de Biociências da USP (IB/USP), a farmacêutica EMS, a empresa XenoBrasil, o Instituto de Zootecnia (IZ/APTA) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Em março deste ano, o grupo alcançou um marco inédito com a obtenção do primeiro porco clonado do Brasil e da América Latina.
Para o diretor-presidente do IPT, Anderson Correia, a atuação de Raia foi determinante para o avanço de iniciativas estratégicas em tecnologia em saúde: “Foi com essa visão de futuro que o IPT estruturou frentes em tecnologia em saúde e passou a integrar projetos como o de xenotransplantes. Seu legado permanece vivo nas soluções que estamos desenvolvendo e no impacto que ainda será gerado para a sociedade.”
Para a pesquisadora do IPT Helena Araújo, que integra a iniciativa, o que mais marcou sua trajetória foi a capacidade de enxergar o futuro: “Mesmo após tantas realizações, ele seguia trabalhando por novos horizontes. Para mim, ter a oportunidade de fazer parte desse trabalho e conviver com ele foi uma inspiração de coragem, liderança e compromisso com algo maior. Seguiremos com a responsabilidade de dar continuidade ao seu grande sonho de salvar vidas.”





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